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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Os Judeus em Viseu

Desde muito cedo os judeus se fixaram na região de Viseu, aumentando o seu número com a vinda dos seus confrades castelhanos que procuraram, em 1395 nas serras e na zona raiana, refúgio para as perseguições violentas que vinham sofrendo.

Os Judeus viveram inicialmente junto dos Muros Velhos na colina da Sé e as sepulturas dos seus mortos, que não podiam ficar a menos de 50 passos da última casa da Judiaria, localizar-se-iam fora de portas, possivelmente, perto das três saídas da cidade, junto de árvores e arbustos.

Por volta de 1412, a pedido dos moradores de Viseu, D. João I manda construir novas muralhas. No entanto, foi interrompida a sua construção poucos anos depois.

A cidade que se vira saqueada, queimada e destruída inúmera vezes pelos corredores de Castela, só verá as suas muralhas concluídas em 1472, no reinado de D. Afonso V, depois de muitas reclamações em Cortes pelos procuradores do povo da cidade.

Em 1468, D. Afonso V ordena o encerramento das portas e janelas das casas da judaria sob pressão dos procuradores dos concelhos. Maria José Ferro Tavares, reportando-se a documentos da Changelaria de D. Afonso V, informa-nos que os judeus da Comuna de Viseu eram obrigados a fechar as portas e as janelas abertas para a zona cristã de pedra e call e a maneira de seteiras com huu ferro por meo dellas ao longo, as quaes sejam altas do chão em guissa que nom contenham lugar pera olhar solvo pera lume e doutra guissa nom.

No evoluir da História, as multas e penas foram aligeiradas até chegarem a ser inexistentes, sempre que a ausência do judeu do seu bairro, depois dop toque das Avés-Marias, fosse justificada pelos interesses ou necessidades de população cristã. Assim, se alguns judeus viessem de fora da Vila ou Cidade a caminho ou de alguma quinta e lhes anoitecesse no caminho ou ainda viessem de barca per mar de noite não incorriam em qualquer pena. Igualmente, os rendeiros das Sisas D´el Rei que arrecadassem as suas rendas de noite e não frequentassem casa sospeita não eram penalizados se acompanhassem cristãos. Determina-se que os judeus que fossem chamados a casa de cristão, por causa que ao chrisptaão, ou ao Judeo for grande necessidade ou mester, que possa[m] allá hir, com tanto que leve candea (...). Estavam neste caso os físicos, os cirurgiões e outros mesteirais se pera seus Offícios e Mesteres forem chamados. (Ord. Affons. Liv.2, Tit. LXXX, ァ 1-14).

Exercendo as mais diversas profissões, eram tolerados como minoria religiosa, num frágil e precário equilíbrio criado pelas necessidades das guerras, dos povos e dos reis. Eram, no século XV, mercadores, almocreves, ferreiros, armeiros, lagareiros, adegueiros, sapateiros, algibebes, peliqueiros e tosadores, tintureiros, tendeiros, físicos, boticários, ourives, licenciados, proprietários de linhares, vinhas e olivais, pequenos agricultores e arrematadores de impostos do rei, da nobreza e do clero.

Viseu [situava-se] num importante ponto estratégico, já antes reconhecido pelos construtores da Cada de Viriato. Essa mesma razão estratégia levou à construção da rede viária irradiante de Viseu [...]. O ponto de partida de todas estas vias situar-se-ia algures num triângulo com vértices no Largo de Santa Cristina, Capela de S. Miguel e Largo Mouzinho de Albuquerque, três pontos junto dos quais se situavam três importantes necrópoles romanas [...]. A cidade teria dois eixos principais, o cardo e o decumanus, permanecendo os vestígios desses arruamentos na Rua Direita e Rua do Gonçalinho, respectivamente, adaptando-se à topografia do terreno, na encosta da Sé.

Do povoado aberto inicial, Viseu passou a praça fortificada recebendo uma muralha de 1,5 m de espessura, quando as hordas invasoras começaram a ameaçar as fronteiras pacíficas do Império (J.L. da Inês Vaz et Alt.).

As vinhas dos Judeus

Em Viseu, cidade com características predominantemente rurais, a minoria judaica circulava à vontade consoante as suas ocupações. Os judeus frequentavam mercados e freiras das redondezas onde alugavam casas e tendas. Viviam na judiaria da cidade e também nos arrabaldes e aldeias vizinhas.

Nas suas errâncias de mercadores seguiam as vias romanas que, irradiando da cidade, os conduziriam ao litoral ou à praia, ao Norte ou ao sul. De Viseu, proprietários ou arrendatários partiam para os campos limítrofes, talvez pela porta do Senhor Crucificado, para as Vinhas dos Judeus que pensamos poder localizar no concelho de Ranhados. Na Alagoa, Jugueiros, Rio de Loba, Nogueira, Silvã, Arroteia; valbom, Faíl e Besteiros traziam também arrendados olivais e vinhas, hortas e lagares.

Os tributos pagos pela vinho, os lagares e o número de adegueiros permitem, claramente, colocar esta região num lugar importante na produção de vinho.

O relego de Viseu, na posse do Infante D. Henrique, confirma-o, pelas inquirições feitas em 1433 e pelas avultadas quantias em imposto pagas por estes produtos: Vinhas havia-as por toda a Beira, especialmente nas terras marginais a Viseu, no Rio Dão, que corria o almoxarifado, na linha Douro Calvo – S. Gemil. A Inquirição deixa em cadastro uma produção de 3733 almudes e meio, o que equivalia até 93 500 litros, na medida máxima de um almude para cerca de 25 litros. À testa vem, Besteiros (...)(João Silva de Sousa).

Os judeus de Viseu como os das outras comunas do reino não tinham só uma actividade. Nos documentos em arquivo há referência a ferreiros que aforavam hortas e chãos, a sapateiros que arrendavam casas com cortinhais e almuinhas (hortas fechadas), a mercadores que eram rendeiros do rei da nobreza e do clero, a licenciados que eram proprietários de vinhas e olivais; a tendeiros que tratavam e vendiam peles. A fisionomia de Viseu era, com toda a certeza, bem diferente da de hoje. Hortas, olivais e vinhas ocupavam espaços agora densamente urbanizados. As oficinas e tendas das ruas da judaria eram frequentadas por cristãos, homens e mulheres. Vinham procurar o sapateiro e o alfaiate, os ferreiros e os albardeiros mais competentes, os tendeiros que ofereciam as quinquilharias vindas de outras terras, os boticários e as suas ervas de curar.


Monteiro, Isabel (1997) Os Judeus na Região de Viseu: a História, a Cultura, os Lugares. Edição da Região de Turismo Dão Lafões.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Aristides de Sousa Mendes

Aristides de Sousa Mendes, GCC, (Cabanas de Viriato, 19 de Julho de 1885 — Lisboa, 3 de Abril de 1954) foi um diplomata português. Recusou-se a seguir as ordens do seu governo (o regime de Salazar) e concedeu vistos a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940, ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Aristides salvou dezenas de milhares de pessoas do Holocausto. Foi o "Oskar Schindler português" (comparação pouco reconhecedora do facto de Aristides ter salvo um número muito superior de pessoas das de Schindler).
Foi baptizado Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches numa pequena aldeia do concelho do Carregal do Sal, no sul do distrito de Viseu. Aristides pertenceu a uma família aristocrática com terras, católica, conservadora e monárquica - (ele também católico e monárquico). Seu pai era membro do supremo tribunal.

Aristides instala-se em Lisboa em 1907 após a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra, tal como o seu irmão gémeo. Ambos enveredaram pela carreira diplomática; Aristides ocupará deste modo diversas delegações consulares portuguesas pelo mundo fora: Zanzibar, Brazil, Estados Unidos da América. Em 1929 é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia, cargo que ocupa até 1938.
O seu empenho na promoção da imagem de Portugal não passa despercebido.
É condecorado por duas vezes por Leopoldo III, rei da Bélgica, tendo-o feito oficial da Ordem de Leopoldo e comendador da Ordem da Coroa, a mais alta condecoração belga.
Durante o periodo em que viveu na Bélgica, conviveu com personalidades ilustres, como o escritor Maurice Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura e o ciêntista Albert Einstein, Prémio Nobel da Fisica. Depois de quase dez anos de serviço na Bélgica, Salazar, presidente do Conselho de Ministros e ministro dos negócios estrangeiros, nomeia Sousa Mendes cônsul em Bordéus, França.
Em 1940, com 55 anos, ele aproxima-se do fim da sua carreira e é pai de catorze filhos, muitos deles fruto de relações extra-conjugais. Politicamente nunca se fez notar.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Cultura judaica e Turismo em Viseu: um desafio para o Centro Histórico"

Diário de Viseu de 14.02.2009

“Cultura Judaica em Viseu”



A antiga Sinagoga de Viseu recebe, durante o colóquio, uma mostra dedicada à "Cultura Judaica em Viseu". Com a exposição, a comissão organizadora pretende "aguçar a curiosidade para um estudo metódico e aprofundado da temática".

A exposição reúne um conjunto de documentos do Arquivo Distrital de Viseu (ADV). O acervo do ADV inclui muitos documentos que permitem reconstituir a História e a Cultura Judaica em Viseu. Em 1992, o Arquivo elaborou um catálogo resultante de um primeiro levantamento realizado nos anos 70.
O Grupo de Missão, em conjunto com o Arquivo Distrital, analisou o catálogo e elaborou quatro painéis dedicados à "Comuna Judaica", "A Sinagoga", "As Famílias" e "As Profissões".

Samuel Usque, embora seja desconhecido por muitos portugueses, será a figura em destaque na exposição.
O escritor português, de origem judaica, nasceu em 1492 e sofreu as vicissitudes e perseguições de que foram alvo os judeus portugueses no período renascentista. A mostra na antiga Sinagoga irá exibir espécies bibliográficas da obra de Samuel Usque. A Biblioteca de Viseu possui, no seu Fundo Antigo, um exemplar raro da segunda edição da obra "Consolação às Tribulações de Israel", redigida em Ferrara, Itália, quando o escritor se encontrava exilado.

De acordo com Henrique Almeida, o livro vai ser exposto, com especiais cuidados de segurança, apenas durante o período de visita dos participantes do colóquio.
O historiador acredita que "muitas outras referências aos judeus em Viseu estarão ainda por desvendar".

Jornal do Centro, ed. 361, 13 de Fevereiro de 2009